A doação como um presente, a doação como um dom
16 de Outubro de 2017 às 07:00
 
A circulação de um presente ou de uma doação alimenta aquelas partes de nosso espírito que não são inteiramente pessoais, mas oriundas da natureza, do grupo, da raça e até dos deuses. Aliás, mesmo que esses espíritos façam parte de nós, eles não são “nossos”; são dádivas que nos foram conferidas. Ao doar o acréscimo que proveram, nós as alimentamos – e assim aceitamos que receber tais dádivas traz consigo uma obrigação de preservar sua vitalidade.  Lewis Hyde, em The Gift
 

O captador de recursos é um privilegiado: a ele cabe a função de alimentar a circulação de doações na sociedade. E isso é essencial para nossa vida em sociedade. Para falar disso, farei um paralelo com algumas ideias contidas no livro de Lewis Hyde.

Lewis Hyde é um poeta e intelectual americano que se interessa pelo que chama da vida pública da imaginação humana. Ele propõe em “The gift” um paralelo entre a atividade artística, criativa, e a palavra gift, que em inglês pode significar talento, doação ou um presente. Há paralelos em português: um artista talentoso é alguém que tem um dom; doar e presentear podem ser sinônimos. 

Já o contrário da doação é o comércio. Enquanto uma doação ou um presente cria laços e um sentido de comunhão entre os envolvidos, a venda ou compra de um produto ou serviço não necessariamente. O comércio tende a ser impessoal, baseado na ideia de equivalência. Quando se compra algo por um preço justo, a relação termina ali: não resta obrigação ou expectativa de nenhuma parte.

Doar ou presentear alguém, ao contrário, pressupõe que se queira fortalecer e alimentar a relação. Por exemplo, por meio da reciprocidade: quando alguém a quem presenteamos nos dá outro presente de volta – não por que a gente cobra, mas sim por que o outro se voluntaria para retribuir. Obrigado pelo jantar, o próximo é na minha casa.

Mas esse elo de doação – apenas entre duas pessoas ou grupos – é o mais simples. Os laços com maior potencial de crescimento acontecem quando o círculo de doação é aberto e envolve terceiros, quartos, quintos...

Esse tipo de generosidade em cadeia acontece em bons programas sociais com multiplicadores. O melhor exemplo que vi veio de uma fundação paulista que formava jovens para serem leitores para crianças pequenas. Pois esses jovens – que já eram em si público-alvo do programa – tomaram a iniciativa de também contribuir financeiramente para a manutenção do programa. As doações eram pequenas – de 1 a 10 reais – mas eram grandes o bastante para criar mais um elo solidário.

Lewis Hyde também associa gift a talento, paralelo que da mesma forma cabe à doação. Podemos falar nela como um dom: pesquisas recentes mostram como o ser humano nasce com a capacidade de altruísmo e de se importar com os outros. Mas não basta o impulso da natureza: é preciso exercitar e encorajar esse dom; ele precisa ser desenvolvido e praticado no mundo real. Aí está mais um privilégio do captador de recursos: é alguém que facilita o desenvolvimento de mais um talento humano.

Isso não quer dizer que não há um lado escuro e problemático do impulso doador. A conexão que se estabelece pode ser excessiva e até opressiva. Imagine um jovem que quer se tornar mais independente: pode ser importante parar de aceitar presentes de seus pais. Da mesma forma, uma comunidade pode preferir rejeitar alguns tipos de doações para reforçar a autonomia de suas decisões e prioridades. 

Acima de tudo, dependendo de como é feita, a doação pode se tornar um demarcador de poder: doo porque espero receber gratidão, porque espero que outros fiquem em dívida com minha “bondade”. Pode-se falar até em tirania da doação, que usa o poder de comunhão da generosidade para manipular ou humilhar as pessoas. Como exemplo, uma rima da época da escravidão americana é citada por Lewis em seu livro, aqui traduzida livremente:
 
Os brancos lá de Washington são peritos em jogar
Uma esmola para os negros para vê-los se curvar

Não são apenas privilégios, portanto, mas também desafios: que o captador aja para que o ato de doar não seja de opressão, mas sim de comunhão!

Para terminar, uma reflexão. Tudo muito bonito, dirá um leitor, mas tenho planejamento pra cumprir, metas a alcançar, orçamento pra bater. Ficar apenas esperando ou cultivando a generosidade alheia pode não ser suficiente; em geral é necessário complementar essas relações com atividades comerciais, eventos, vendas de produtos e serviços que se afastam em algum grau do espírito de presente da doação.

A ideia aqui não é condenar esse lado comercial, apenas defender a seguinte visão: é mais do que necessário, é vital que os envolvidos com a ONG – captadores, gestores, fundadores, voluntários – mantenham acesa pelo menos uma parte relevante de espírito de dádiva em seu dia a dia.


 
Fernando Nogueira é professor na FGV-EAESP, onde se titulou como mestre e doutor em Administração Pública e Governo. É consultor em gestão de associações sem fins lucrativos, colaborador-voluntário da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) e presidente do Conselho do Instituto Doar. 
 

Este artigo é uma versão adaptada de um texto publicado originalmente na Revista ABCR 15 anos


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