Modelos de financiamento autênticos para OSCs
25 de Setembro de 2017 às 07:00
Muitas organizações sociais, quando vêem seus recursos diminuírem por algum motivo, precisam repensar as formas de se sustentar. Enquanto os recursos fluem, tudo corre bem. Quando uma fonte de recursos importante seca, precisam correr para procurar alternativas. Ou são obrigadas a interromper projetos importantes.
 
Um dos remédios sugerido por muitos especialistas é diversificar as fontes de recursos mobilizados, garantindo assim menor dependência de poucas fontes. Ainda que concorde com essa alternativa, considero fundamental que essa diversificação não seja feita de maneira abrupta, sem reflexão ou imediatista, sujeitando a organização a criar alternativas de mobilização de recursos de baixo valor agregado.
 
Me explico com um exemplo. Organizações de atendimento – creches, asilos, entidades de atendimento no contra turno escolar – têm, em geral, alta dependência de recursos governamentais. Conheci casos de organizações que são mantidas com 90 a 99% de recursos advindos de convênios com poder público. Quando passam por momentos de crise, as prefeituras têm seus orçamentos reduzidos e seus repasses correm riscos de diminuírem ou se tornarem irregulares, causando transtornos ao fluxo de caixa ou até mesmo causando interrupção da oferta de alguns serviços fundamentais à população atendida.
 
Nesse momento, essas organizações buscam alternativas que lhes parecem mais factíveis – realizam jantares, bazares, pequenos eventos, rifas, tudo como forma de garantir, de maneira urgente, o recurso necessário para “cobrir o buraco” deixado pela insuficiência do recursos público. Para conseguir atingir a meta necessária, a equipe faz hora extra, vende convites para eventos, se mobiliza para além do que pode. Ao final, os resultados, em geral, são:
 
  • A organização consegue o recurso necessário para pagar dívidas ou para cobrir a diferença de fluxo de caixa de curto prazo, mas não de longo prazo;
 
  • A equipe está esgotada e percebe que precisa planejar melhor as formas de captar recursos mas, ao final, cada um precisa voltar às suas tarefas originais e o assunto fica “no limbo” até a próxima crise;
 
  • As ações de captação de recursos criadas não geram uma entrada de recursos recorrente, ou seja, quando a organização precisar, no futuro, de mais recursos para seus projetos, precisará novamente dedicar o mesmo esforço;
 
  • A marca da organização não saiu fortalecida, as pessoas que contribuíram têm baixa percepção de que estão participando da transformação de vidas, não há um ganho de valor de longo prazo nem para a organização nem para o doador (que muitas vezes nem se vê como doador, mas apenas participando de uma rifa, indo a um jantar ou comprando uma roupa por um preço baixo).
 
Para sair dessa armadilha, o caminho mais sustentável pode ser também o mais longo a ser percorrido. Defendemos o conceito de modelos de financiamento autênticos. Um modelo de financiamento autêntico é aquele que realiza sua missão e utiliza todas as suas competências, criando um mecanismo de geração de receitas (doações, empréstimos, vendas de produtos ou serviços, equity, etc.) que gere um fluxo alinhado entre entrada de recursos e realização do propósito.
 
 
 
 
Um modelo de financiamento é parte integrante (não separado) do plano estratégico de uma organização social e difere de um plano de captação de recursos por alguns aspectos:
 
  • Inclui todas as atividades com potencial de gerar receitas para a organização (doações individuais, patrocínios de empresas, contratos e convênios com poder público, receitas com prestação de serviços ou venda de produtos, empréstimos, investimentos semente, entre outras estratégias);
 
  • Integra todas essas atividades numa estratégia única, com um plano de implementação;
 
  • Considera metas de curto e longo prazo da organização;
 
  • Considera o financiamento de projetos e da infraestrutura institucional da organização (planejamento, equipe, tecnologia, treinamento);
 
  • Valoriza receitas que estejam alinhadas (e não opostas) às competências principais da organização social e sua equipe.

Pensar um modelo de financiamento é incluir o tema de mobilização de recursos como parte da solução, não como “mal necessário” e abordar o assunto de maneira estratégica, profissional e numa visão de longo prazo.
 
 

Rodrigo Alvarez é Sócio Proprietário da Mobiliza. Administrador de Empresas, com Especialização em Fundraising pela Indiana Fundraising School, formação em Processos de Desenvolvimento pelo PROFIDES/Instituto Fonte e em Pedagogia Social pela Associação Brasileira de Pedagogia Social de Base Antroposófica. Atua há 20 anos com gestão e captação de recursos. Foi um dos fundadores da ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos e é membro do Conselho Consultivo do Rogare – Centro de estudos internacional que pesquisa, entre outras coisas, sobre o futuro da captação de recursos no mundo. 


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