A evolução do F2F e seus benefícios
14 de Agosto de 2017 às 07:00
Há muitos anos as Organizações da Sociedade Civil (OSCs) valem-se, no Brasil e no mundo, do canal face-to-face (ou F2F) para a captação de recursos provindos de doações, por diversos motivos. O principal deles é que não se pode ignorar a eficiência da abordagem individual na eterna busca das organizações por recursos financeiros, chova ou faça sol. O curioso é que, depois de surgir toda essa tecnologia digital, o face-to-face continua rendendo ótimos resultados. Basta prestar atenção no que aconteceu nos últimos anos: os captadores de rua já estão usando aplicativos em smartphones, que aceleram o processamento das doações e zeram eventuais erros. Recursos que demoravam até 45 dias para cair na conta bancária, agora ficam disponíveis instantaneamente. Essas ferramentas incríveis possibilitam a abertura de cadastros de novos doadores em poucos toques na tela, ao mesmo tempo em que coletam dados estatísticos, acionam ferramentas de disparo automático de e-mail marketing e, melhor de tudo, permitem o pagamento online com cartão de crédito ou débito. Certamente, todo o know-how da abordagem tête-à-tête, acumulado em anos de trabalho, não foi superado pela tecnologia, mas recebeu um aliado espetacular: o aplicativo mobile.
 
Até agora, o investimento em tecnologia para a captação de recursos era visto por muitos como um mal necessário. Montar a infraestrutura para a captação online pode exigir a disponibilização de servidores e estruturação de websites - despesas com material e mão de obra especializada em TI. O uso da internet na captação das doações também vai exigir a contratação de profissionais de comunicação social - mais gastos com profissionais especializados. A montagem de apenas uma estação de trabalho de telemarketing pode custar até R$ 7 mil mensais.
 
Já uma campanha de mala-direta pode atingir custos de R$ 100 mil. E materiais como papel ofício, envelopes, etiquetas, tinta de impressão, folders e flyers não se encontra por aí de graça. A captação de doações F2F somada ao advento tecnológico dos aplicativos mobile abre um novo mundo de possibilidades às OSCs, mas não somente para as grandes.
 
Não tenho medo de dizer isso porque os custos da implantação e utilização desse sistema representam apenas uma pequena fração dos valores arrecadados, o que permite que OSCs de qualquer tamanho adotem a essa inovação. As vantagens são muito grandes para serem descartadas sem pelo menos um test-drive. Primeiro pelo próprio caráter da abordagem individual a um potencial doador, feita por um captador minimamente capacitado. Esse método tem uma qualidade que nenhum telemarketing ou website very cool consegue alcançar. Me refiro ao calor humano, à troca de olhares inspirando confiança, ao aperto de mão honesto e firme que sela uma conversa tête-à-tête. Você já deve ter ouvido a célebre frase do Prêmio Profissionais do Ano, que diz que “nada substitui o talento”. Esse é o espírito.
 
 
Em segundo lugar, as organizações que possuem um cadastro numeroso de doadores não ficam tão fragilizadas pelas crises políticas, econômicas ou cortes orçamentários. Mas uma abordagem individual combinada ao uso de um aplicativo mobile é um dos métodos com a melhor relação custo-benefício já inventadas. Há empresas altamente competentes no desenvolvimento e gerenciamento de aplicativos mobile e sistemas CRM (Customer Relationship Management) que oferecem mil facilidades de aquisição, parcerias e pacotes de serviço extremamente acessíveis. Existiria um método de alta performance em captação de recursos mais barato do que o uso combinado de abordagem pessoal, aplicativo mobile e voluntariado?
 
Isso contraria totalmente a ideia de que a abordagem individual eficiente é acessível apenas para as organizações de grande porte, com verba para investir em verdadeiros exércitos de captadores. Agora a tecnologia, vira e mexe criticada por sua frieza, está a nosso favor, resgatando um método de captação consagrado na simplicidade e estupenda eficiência dos aplicativos mobile. Um captador na rua, com um celular ou tablet nas mãos, agora pode cadastrar doadores com meia dúzia de toques na tela. Simultaneamente, o coordenador de equipe obtém dados valiosos sobre o andamento da campanha. São os mesmos dados que irão compor estatísticas importantes não só para o relatório de resultados, mas também para o planejamento de ações futuras e aperfeiçoamentos. Tudo isso com uma velocidade infinitamente superior em comparação com o método de escrita manual e papel utilizado até então.
 
A tecnologia está a nosso favor, resgatando o calor humano de um método de captação consagrado na simplicidade dos aplicativos mobile.
 
Ao aderir ao F2F, disponibilizando um aplicativo mobile para seus captadores de doações individuais, o Greenpeace, Médico Sem Fronteiras e Habitat, por exemplo, que são OSCs consolidadas, aumentaram suas arrecadações e praticamente zeraram o número de erros em cadastros de doadores. No caso do Greenpeace, o desempenho dos captadores deu um salto de 81% comparado aos tempos de papel. A OSC ambiental aposentou a prancheta e a caneta na abordagem individual, sem dispensar o calor humano. As fichas de papel, que precisavam ser digitalizadas por empresas terceirizadas, cujos dados mais tarde eram entregues em planilhas eletrônicas com milhares de erros ortográficos, deram lugar à segurança da interface mobile. A soletração de um sobrenome difícil só acontece uma vez, com a garantia do doador ao lado do captador que empunha um smartphone. Dali para diante não será necessário corrigir nada, pois a inserção da informação foi conferida in loco. A sincronização imediata dos dados corta caminho e a inovação evita riscos do passado como a perda do número do cartão de crédito do doador ou equívocos com o endereço de alguém.
 
É preciso ter em mente que mais da metade dos brasileiro fez alguma doação para organizações da sociedade civil em 2015, de acordo com o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS). Conclui-se, portanto, que não é qualquer crise que pode abalar o senso de solidariedade da população. Esse fato, em si, já é meio caminho andado para alavancar a captação de doações. Somada a um aplicativo mobile, a captação individual agora pode ser reforçada por um cadastro confiável, com informações exatas e de fácil acesso, que favorece a estabilidade da organização. No lugar de poucos doadores de grande porte, empresas e governos que contribuem com vultosas quantias, as OSCs podem ter a segurança de um cadastro vasto, com doadores individuais abordados pessoalmente. Por sua característica inerente de fontes numerosas e diversas, o método garante uma captação estável e muito menos preocupação. Crises políticas ou econômicas e cortes orçamentários não fragilizam  as pequenas organizações com um bom número de doadores individuais.
 
 
Jonas Araújo possui vasta experiência com Tecnologia, formado em Sistemas de Informação pela UFPR, é empreendedor desde os 18 anos de idade.  Trabalha com terceiro setor  desde 2011 quando foi responsável pelo desenvolvimento de diversas plataformas  para captação de recursos com indivíduos para o Greenpeace Brasil. Desde então trabalhou com grandes organizações como Médicos sem Fronteiras, ActionAid, WWF, Anistia Internacional, Unicef, Habitat, Plan, Aldeias Infantis, Dorina Nowill, Instituto Ronald Mc Donald, Conectas, Comite Internacional da Cruz Vermelha, Fundo de Direitos Humanos dentre outras grandes organizações sem fins lucrativos.


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