Estratégia 2: apoiadores de causas - parte 3/3
29 de Maio de 2017 às 07:00
Nesta estratégia principal veremos empresas, pessoas e organizações que aportam recursos financeiros, materiais e humanos pela causa da OSC sem a necessidade de mostrar um ou escrever um projeto.
 
 
Analisando a tabela acima nas estratégias secundárias, a questão que irá separar o médio do pequeno doador será a ferramenta, a forma ou tática de entrar em contato. Ela será mais importante do que o valor da doação e de sua periodicidade. Para os grandes e médios doadores iremos marcar uma visita e apresentar uma solicitação de doação ou patrocínio pessoalmente, em geral valores acima de R$ 5 mil por ano. Já para mobilizar recursos junto aos pequenos temos a nossa disposição várias ferramentas explicadas adiante.

PARCERIAS

A parceria é uma estratégia que utiliza a rede de relações resultante de um esforço continuado de produção e reprodução de relações úteis e duráveis de pessoas que, deliberadamente, manifestam o seu interesse em agrupar-se diante de objetivos comuns, compartilhando solidariamente os recursos disponíveis. (BOURDIEU, 1998) Segundo Junqueira (2008), a parceria também depende da comunicação seja entre parceiros, seja no âmbito de cada organização e com seus públicos (stakeholders).

No contexto atual, o termo “parceiro” é utilizado, principalmente pelas associações e fundações, de forma ampla, o que pode resultar em significado vago e impreciso. Então, verifica-se a necessidade do estabelecimento de princípios e regulações de possíveis parcerias construídas pelas OSCs, se esse for o caso. Devem ser criados critérios claros para o estabelecimento de uma ou diversas relações de cooperação.

Investir tempo e esforço no início da parceria é ponto crítico. É preciso definir claramente o que a organização deseja atingir e os motivos que legitimem essas premissas. Uma apresentação clara da organização, com as informações mais relevantes é necessária.

Quando definidos os parceiros, o próximo passo é negociar e aprovar os detalhes da parceria. As partes devem trabalhar com espírito cooperativo e transparência, levando-se em consideração a necessidade de satisfação de todos com os benefícios que serão proporcionados. Além disso, não deve existir nenhum sentimento de exploração. Os objetivos devem ser claros, mensuráveis, atingíveis, realistas. Alguns instrumentos legais precisam ser elaborados para que a cooperação fique claramente documentada. Segurança jurídica é fundamental.

É importante que fiquem claros os papéis e responsabilidades das partes. Comunicar-se regulamente ajudará a assegurar que o processo funcione com eficiência.

Diversas ferramentas estão disponíveis para esta estratégia como as penas alternativas concedidas por juízes, que têm convertido estas penas em recursos para OSCs e também, a Nota Fiscal (solidaria, paulista, do bem etc), que consiste em uma parceria entre o poder público, as lojas (que disponibilizam o espaço para as urnas) e o consumidor final.

VOLUNTARIADO

O voluntariado é uma tática que não traz recursos financeiros imediatos, porém pode agregar muitos outros recursos importantes.

Meyer; Pascucci; Murphy, em seu artigo de 2012, demonstram que um projeto com a participação de voluntários em hospitais de Curitiba, oferece três ganhos na utilização desta estratégia: redução de custo, melhora da imagem da organização e atendimento social e psicológico para o beneficiário.

O voluntariado empresarial deve ser acrescido como tática na conversa com as empresas e deve-se oferecer espaços de atuação de funcionários das empresas na OSC, por exemplo em seus eventos.

Como integrantes das redes sociais, as OSCs passam a constituir uma forma privilegiada de gestão das políticas sociais. Elas também incorporam pessoas que voluntariamente a integram ajudando a tecê-la, colocando o seu saber, o seu tempo e experiência a serviço do bem público, assim posiciona Junqueira (2000) o trabalho do voluntário e como ele integra e forma a rede social. Esta estratégia é também importante para mobilizar pessoas que podem ser diretores, conselheiro ou prestadores de serviço (sem custo) das OSCs. Com as ferramentas das redes sociais na internet e visitas, pessoas são convidadas a participar, a fazer parte de algo maior.
 
CATÁSTROFES

Infelizmente elas acontecem todos os anos em diversos locais do planeta. Estar preparado para elas e mobilizar recursos com esta estratégia requer planejamento. Sabe-se que haverá secas, enchentes, tempestades de neve, terremotos, furacões e explosão de vulcões. Alguns destes eventos são previsíveis, outros não, porém ter um pessoal preparado para atender estas necessidades com kits prontos de sobrevivência tem sido a missão de algumas OSCs ao redor do mundo. Com a tática da emoção e da urgência, com as ferramentas das redes sociais, SMS / torpedos e banco de dados utilizados na hora da tragédia, atinge-se um grande número de pessoas que doam alimentos, colchões, objetos e dinheiro.



***Para ler as partes 1 e 2 do artigo, clique nos links abaixo:
- parte 1
parte 2



 
Michel Freller empreendedor social, palestrante, professor, consultor e facilitador. Mestre em Administração pela PUC-SP, atua junto as OSCs com ênfase em planejamento e mobilização de recursos com e sem incentivos. Fundador da Criando Consultoria ltda.



Referências
BOURDIEU, Pierre. O capital social – notas provisórias. In: CATANI, A. & NOGUEIRA, M. A. (Orgs.) Escritos de Educação. Petrópolis: Vozes, p.65-79,1998.
 
INSTITUTO PARA O DESENVOLVIMENTO DO INVESTIMENTO SOCIAL (IDIS). Pesquisa doação Brasil 

JUNQUEIRA, Luciano Antônio Prates. Gestão Social: Organização, Parceria e Redes Sociais IN:CANÇADO, A.C.; SILVA Jr, J. T.; SCHOMMER, P. C.; RIGO, A. S. (orgs) Os desafios da formação em gestão social. Palmas: coleção Enapegs p.87 -103. 2008.

______. Organizações sem fins lucrativos e redes na gestão de políticas sociais, Caderno de Administração PUC-SP, nº 3, p 101-126. 2000.
MEYER Junior Victor; PASCUCCI Lucilaine; MURPHY, J. Patrick. Volunteer in Brazil hospitals: good citizens or strategic agents? published online 24/01/2012. International society for third sector research and the John’s Hopkins University.
 
 


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