Formação com resultados
20 de Março de 2017 às 07:00
Esta semana, assistindo um video sobre marketing digital, surgiu esse questionamento: você faz formação ou gera resultados? Claro que era uma provocação, a pessoa estava interessada em chamar a atenção para o jeito de falar no video, e nos textos de formação. O fato é que eu me senti provocado e fui a fundo nessa questão. É sobre isso que quero falar com você hoje.
 
De tempos em tempos eu tenho uma certa crise. Uma crisinha, nada grave. Ela aliás é esperada por mim com ansiedade. Eu gosto desses momentos onde me vem um questionamento interno, porque é nesses momentos que eu me reinvento, crio coisas novas, surgem novos desafios para serem superados. A crisinha que veio com a provocação do cara do video foi essa: e aí? Dessas mais de 10 mil pessoas que formei nesses anos todos, quantos será que conseguiram resultados concretos?
 
Eu sei que muitos não conseguiram, não tenho a expectativa de gerar mudanças significativas em 100% das pessoas que passam pelos meus cursos. Eu inclusive consigo descobrir quais as pessoas que saem pilhadas para implementar as coisas que acabam de descobrir. Assim como vejo aquelas que estão tão perdidas com a novidade que vão demorar um pouco pra assimilar tudo e talvez acabem não implementando nada.
 
A minha questão agora é: quanto será que uma boa formação, seja minha, seja de quem for, consegue gerar resultados concretos? E o que devemos fazer, como formadores, para que isso ocorra no maior percentual possivel de execução? Eu acho que influenciei, através de formação, mais de mil ONGs. Mas poderia ter influenciado 20 mil, se estivesse mais atento em desenvolver ferramentas de implementação imediata, simplificadas, mensuráveis, que gerassem resultados muito claros. Isso estimularia esses alunos a querer conseguir mais doações, fazer mais, aprender mais, em espiral ascendente, entende?
 
Minha crisinha me fez ficar desapontado comigo mesmo. Minhares de pessoas passaram por mim e foi insuficiente, foquei demais em formação, de menos em resultados.
 
No começo, faz 20 anos, nas minhas primeiras aulas, eu tinha dezenas de slides cheios de gráficos. Aquilo me fazia sentir importante, estudioso, rebuscado. Fazia comparações desnecessárias, dados de outros países, tudo pra mostrar como eu era sabido. Com o tempo, fui largando pra lá esse modelo de slide.
 
Uma época, no final dos 90, formei através do Senac 500 ONGs de base, com lideres comunitários semi analfabetos. Gente preociosa, especial, inteligente, mas que não sabia fazer regra de 3, alguns não sabiam escrever uma frase. Aquele desafio foi genial pra mim. Remodelei todas as minhas aulas, tirei tudo que fosse complicado. Aquilo tinha que ser entendido por uma criança de 12 anos (ou um lider comunitário semianalfabeto) ou não servia. Pois bem, são os slides que uso até hoje e todo mundo, inclusive eu, entende e gosta.
 
Eu acho que fiz a diferença pra alguns daqueles lideres comunitários. Mas eu acho que poderia ter feito mais, pra vários outros líderes... Crisinha, entende?
 
Mais recentemente tenho feito cursos diferentes, onde dividimos a formação em módulos, mesclamos com algum coach à distancia, tem apresentação do plano de captação entre alunos e finalizamos com uma clareza dos primeiros passos.
 
Eu estava satisfeito com esse modelo até esta semana. Fizemos isso nas santas casas do interior do estado, com ONGs em Floripa, Sorocaba e mais recentemente um grupo ótimo em Córdoba, na Espanha. Também desenvolvi um curso totalmente à distância com gente do Brasil inteiro, coach indivual e grupo secreto no Facebook. Um sentido de comunidade que ajuda muito no processo.
 
Mas o cara do vídeo me cutucou. Mesmo sendo um formato novo, esse modelo sendo mais presente, modular, participativo, ainda assim tem algo que me provoca agora a querer mexer. Qual o resultado? Porque se o resultado é ter um plano de captação, ok. Check. Fazemos bem isso. Mas o resultado não deveria ser a captação em si? Não estou dizendo de fazer a captação para a ONG, mas de formar alguem de tal forma que ela saia captando desde o primeiro dia.
 
Na Captamos a intenção é formar milhares de ONGs. Para isso existem cursos ótimos, artigos interessantes, reportagens e uma comunidade começando a interagir. Mas e aí? Quanto isso gerará a mais de dinheiro para essas organizações? Quanto elas conseguirão? A pergunta não é retórica, assim como não se trata de uma crítica e sim de: como formar para resultados?
 
Esta semana eu tive a crisinha, mas acho que também cheguei num mapa pra seguir andando: estou remodelando completamente meus cursos. Estou dizendo adeus a como montar um departamento, como criar um plano, como captar na web. Quero focar em formação com resultados.
 
Meus novos cursos serão assim: como conseguir teus primeiros mil reais em doações em 30 dias? E como captar 240 mil reais por ano em doações recorrentes? E como conseguir teus primeiros mil doadores em 6 meses? Aliás, percebo agora, acho que esses serão também os próximos temas dos meus novos artigos por aqui.
 
Captou? :)
 
 
Marcelo Estraviz, escritor, empreendedor, palestrante, ativista. Fundador e ex-presidente da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) e da associação de ex-alunos do Colégio Miguel de Cervantes; conselheiro do Greenpeace, do Instituto Filantropia, do Cidade Democrática e do Engajamundo. Autor dos livros “Captação de diferentes recursos para organizações da sociedade civil” e “Um dia de captador“. Acaba de lançar o livro “Pause“, sobre suas experiências com períodos sabáticos. É Empreendedor Cívico da RAPS, Rede de Ação Política pela Sustentabilidade e Presidente do Instituto Doar
 


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