Captamos entrevista: Victor Alcântara, gerente executivo da Fundação Abrinq
21 de Fevereiro de 2017 às 07:00
Envolver entorno é fundamental para sustentabilidade de organizações.

A Fundação Abrinq — criada, em 1990, pela Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos — é uma das mais reconhecidas organizações da sociedade civil do país. Com mais de 70 mil doadores regulares, pode ser considerada uma gigante da área. Mesmo assim, também está sujeita às intempéries que atingem a todos, como a queda de doações durante a crise.

Nesta entrevista à Captamos, o gerente executivo da Fundação Abrinq, Victor Alcântara, fala sobre os efeitos da turbulência econômica na instituição. Fala ainda sobre temas como avaliação de impacto, profissionalização das organizações e aponta um caminho para a sustentabilidade financeira do setor: “envolver o entorno”.

Confira trechos da entrevista.
 
Captamos: Como foi a criação da Fundação Abrinq?
Victor Alcântara: Em 1990, os empresários da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos resolvem fazer uma fundação com foco na erradicação do trabalho infantil, já na luta para a aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente. No início, havia poucos doadores individuais e mais apoio das empresas de brinquedos. Então, começa o apoio de empresas de amigos desses diretores, com doações vultosas. Essa dinâmica, ao longo do tempo, vai se modificando. Conseguimos financiamentos internacionais. Depois, começamos lentamente a mudar, diminuindo um pouco a quantidade de empresas, por conta da criação de institutos próprios, e aumentando o número de indivíduos. Hoje, temos 60 mil doadores individuais e 10 mil empresas, todos doadores regulares mensais. O ticket médio é de R$ 30 para pessoa física e de R$ 60 para empresas.
 
C: Qual o método de captação de vocês?
VA: A área de captação está dentro da área de marketing, junto com comunicação. Trabalhamos com parcerias e editais, e uma equipe procura fazer campanhas de marketing relacionado à causa. Na parte de captação com doadores mensais, fazemos basicamente o que todo mundo faz. Face to face, mala direta, TV, um pouco de digital e alguns eventos pontuais. Nós temos metas em valores e em números de doadores anuais, e temos um plano para cinco anos também, uma visão de longo prazo. No último ano e meio, houve uma balançada na economia, várias organizações sentiram. Isso talvez vá afetar mais fortemente nosso plano de cinco anos. Mas sempre temos uma meta de longo prazo e uma meta anual.
 
C: Como essa “balançada” na economia se refletiu na fundação?
VA: Foi inesperado para todo mundo. Não nos preparamos para isso. Acontece é que, de 12 milhões de desempregados, muitos são doadores. A primeira coisa que a pessoa faz é ligar e dizer que quer cancelar. Houve muito cancelamento. Perdemos receita. Acho que já estamos num momento diferente. Financeiramente, está equilibrado e com a esperança de, no ano que vem, começar a crescer de novo.
 
C: Como vocês trabalham?
VA: De várias formas. Temos uma área de advocacy para defesa das leis de direitos das crianças. Dentro da educação, saúde e proteção, estamos mais focados na primeira infância, no acesso à creche, na diminuição da mortalidade infantil, no combate à violência contra a criança. Os programas trabalham mais ligados a esses três eixos e nessa faixa etária.

Em alguns projetos, abrimos editais para financiar organizações. Transferimos recursos para aproximadamente 400, número variável, dependendo do edital que abrimos. A fundação não tem projetos de atendimento direto, sempre trabalha apoiando alguém. No “Programa Nossas Crianças”, há pouco mais de 200 organizações para quem damos apoio financeiro, técnico e, às vezes, com doação de produto. E em alguns projetos pontuais, nos quais precisamos de alguém lá na ponta para atender, fazemos parcerias.
 
C: Qual a importância da avaliação de impacto para vocês?
VA: Depende muito da atividade. O “Programa Nossas Crianças” tem uma prestação de contas mensal. Mas há programa que não adianta pedir prestação mensal. Tem de ser semestral, porque existe uma série de atividades que você não vai conseguir medir em um mês. Precisa de um pouco mais de tempo.
 
C: As organizações, principalmente as menores, estão preparadas para fazer avaliação?
VA: Nós ajudamos dando cursos. Temos publicações de formação e planejamento de avaliação para ajudar a administrar melhor as organizações. Não é só repassar o recurso e ficar esperando o resultado. Esse é o apoio técnico que damos. Também dependemos de financiador para fazer os repasses e, às vezes, não conseguimos colocar uma avaliação para um ou dois anos depois, que seria o ideal, fazer um projeto e voltar depois para ver o impacto.
 
C: Quais mudanças vocês perceberam nas organizações nesses anos de atuação?
VA: Acho que a profissionalização. Há um entendimento das organizações de que é preciso se profissionalizar. O duro é que entender é uma coisa e conseguir fazer é outra. Às vezes, as pessoas estão focadas no dia a dia. “Vamos fazer um plano estratégico para os próximos cinco anos?” E elas estão preocupadas se a cozinheira veio. É a urgência do atendimento direto. Quando saem um pouquinho para fazer uma reunião conosco é um avanço imenso. Há uma troca de experiências. Essa é um pouco da nossa tarefa. Hoje em dia, o acesso à informação até existe, mas precisa parar, sair daquele ambiente em que a pessoa é administradora de manhã, pedagoga de tarde e faz plano da organização de noite.
 
C: Dentro da profissionalização, você vê áreas que estão mais avançadas e outras que ainda precisam melhorar?
VA: Como o atendimento é prioridade, a administração e captação ficam um pouco à parte por falta de recursos de uma forma geral, tanto humanos quanto financeiros.

C: Há um dilema entre investir na causa imediata ou na sua estrutura?
VA: Sim. Falta cultura de doação. A Captamos e organizações como a Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis) falam dela. Não sei muito como desenvolver isso. Mais ainda: desenvolver a cultura de as pessoas no entorno da organização se envolverem com ela. Para mim, essa seria uma solução. Como vamos pensar na sustentabilidade do negócio? A organização está sem dinheiro e as pessoas dizem “que pena” e ela fecha. Não tem mobilização local.

Em relação à captação de recursos é a mesma coisa. "Mas meu entorno é muito pobre." Comece pelo entorno que você vai ver o que há de riqueza ali. Qualquer comunidade tem muitos negócios, os brasileiros têm essa coisa empreendedora. Se existisse um conselho envolvendo os beneficiários, as pessoas locais, pensando na atuação e na melhoria e em como trazer recursos para fazer isso, talvez fosse o pulo do gato.
 
C: Que tipo de estratégia você recomenda para envolver o entorno?
VA: Bater na porta. Não tem outro jeito. Do pequeno ao grande. Bater na porta da Unilever é o mesmo trabalho de bater na porta do entorno. A gente fala que no Brasil tudo precisa de um aplicativo, de um software. Havia uma aldeia na Índia com mortalidade infantil muito forte. Uma pessoa comprou um caderno, passou de casa em casa, fez um cadastro de todas as mulheres numa faixa etária em que poderiam ter filhos. Mapeou a vila. A partir dali, se ficou grávida, fazia passar pelo pré-natal. Sem software, sem aplicativo.

Quem está aqui no meu entorno? Existe potencial nas comunidades, são muito ativas. Se os filhos das pessoas estão ali, aquela é a opção de mudança de vida para eles. Por que não se envolver com aquilo? É evidente que não é fácil. Há organizações que fazem isso. A doação mensal, regular é importante. Se você faz uma festa junina, arrumou seu caixa, mas, no mês seguinte, continua o problema. A gente vê muito no Brasil as pessoas solidárias na desgraça, mas depois somem. O envolvimento permanente com a organização é importante.
 
C: Como mostrar para a comunidade que você é importante para ela?
VA: Abra as portas. As organizações têm muita dificuldade de fazer isso. Mas também as pessoas falam que querem saber e não vão.  A gente vive fazendo eventos para mostrar nossas atividades e as pessoas dizem que não têm tempo. Mas ainda acho que uma organização de portas abertas, no sentido amplo, é interessante.  Não é simples. Mas tem gente indo por esse caminho, e organizações que fazem muito com muito pouco, como as que apoiamos. É preciso cadastrar as pessoas e pedir sempre, pois elas esquecem. Põe no Excel, faz um cadastro. É necessário software? Se a gente está falando das pequenas, não precisa.
 
C: Existe um bom material para quem quer se capacitar?
VA: Há bastante coisa. E tem uma coisa meio de garimpo, ver o que as pessoas recebem, como organizações fazem campanha. Marque visitas, vá a eventos. A própria Captamos tem muita coisa de graça. Ache algo com que você se identifique.
 
 
 
 Victor Alcântara,
Gerente executivo da Fundação Abrinq


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