Você é um profissional de captação de recursos?
30 de Janeiro de 2017 às 07:00
A primeira vez que ouvi falar em Terceiro Setor foi em 1996. Lembro bem, foi um amigo de faculdade que falou sobre o tema numa palestra. De lá pra cá (mais de 20 anos!), muita coisa mudou: a internet se popularizou, ninguém mais usa CD, o Brasil viveu vários ciclos de euforia e crise, tivemos e abandonamos contas no Yahoo, no ZipNet e no Orkut. Mas uma coisa não mudou: o discurso sobre a necessidade de profissionalizar o Terceiro Setor. E é comum ouvir isso também quando pensamos especificamente na área de captação de recursos – mais profissionalismo, por favor.

Não há dúvidas de que o setor cresceu e se organizou mais nessas décadas: o número de ONGs aumentou expressivamente, mais gente vê no setor uma possibilidade de fazer carreira e algumas práticas excessivamente amadoras e na base da boa vontade são consideradas inaceitáveis hoje em dia. Ainda assim, não é raro ler que o setor ainda precisa se profissionalizar. Mas o que esse clichê quer dizer, afinal?
 
Uma pergunta, duas respostas

Há dois jeitos de entender essa recomendação. A primeira é o sentido que a maioria das pessoas tem em mente ao falar em profissionalização. Ser profissional equivale a trabalhar com seriedade, organização, comprometimento. Um trabalho profissional é um trabalho bem feito, bem executado, que segue padrões e tem sistemas claros de planejamento, execução, acompanhamento e melhoria. Assim, uma organização de terceiro setor que se profissionalizou seria a que tem uma boa gestão, que não conta apenas com voluntários, que tem indicadores, metas, sistemas, procedimentos, padrão de qualidade etc.

No entanto, há um segundo sentido para a palavra profissional – mais ligada à sua raiz, profissão (ou categoria profissional). Esse conceito, em geral estudado por ramos da sociologia, tem a ver com a ideia de que profissional é aquela pessoa que exerce uma profissão específica. As mais tradicionais em nossa sociedade são advocacia, medicina e engenharia, e todas têm uma característica importante: apenas os profissionais com formação na área podem praticar esse tipo de trabalho (essa exclusividade é até garantida em lei, em nosso país).

Os estudiosos dizem que uma profissão se consolida quando se combinam alguns fatores:
- um conjunto de conhecimentos e práticas profissionais tidos como específicos;
- uma comunidade de praticantes que se reconhecem como parte dessa categoria profissional;
- um conjunto de valores sobre o que é certo ou errado a fazer, geralmente explicitados em um código de ética.
 
Profissão: captador de recursos

Assim, uma das formas de se responder se o campo da captação de recursos se profissionalizou é questionar: já é possível pensar no captador de recursos enquanto categoria profissional? No Brasil de hoje, vários elementos indicam que sim.

1) Formação específica
Cada vez mais aparecem cursos sobre captação de recursos. E estes crescem não só em quantidade, mas também em diversidade. 20 anos atrás, praticamente só existiam cursos “generalistas” – o que é captação de recursos. Hoje, há muitos que tratam de temas cada vez mais específicos – captação com indivíduos, captação de grandes doadores, desenvolvimento de um departamento, mobilização face-to-face, crowdfunding etc. Há uma afirmação implícita nessa multidão de cursos: é preciso uma formação cada vez mais específica e especializada para ser um bom profissional de captação.
 
2) Comunidades formais e informais
A existência e crescimento da ABCR, o nascimento da Captamos e a proposta do Certificado de Captador de Recursos são todos indicadores de que existe, sim, uma comunidade de pessoas que se reconhecem como captadores de recursos e promovem essa profissão. Ao fazê-lo, buscam se legitimar e defender sua importância para as organizações da sociedade civil.
 
3) Valores e Código de ética
Finalmente, começam a aparecer cada vez mais discussões sobre os valores que devem guiar a prática de captação de recursos e como lidar com desafios e dilemas éticos que surgem na profissão. A própria ABCR tem como uma de suas primeiras realizações a criação de um Código de Ética para o captador (não conhece? Leia já!). No FIFE de 2016 fiz a mediação de uma mesa muito interessante discutindo esses aspectos, contando com João Paulo Vergueiro (ABCR) e Suellen Moreira (Sociat Consultoria) como debatedores. Falou-se de tudo: remuneração de captadores, conflitos de interesse, competição pelos doadores... É também sinal de que o campo amadurece e se discute mais abertamente o que é ético ou não em sua prática.
 
Assim, é cada vez mais possível falar na existência de uma categoria profissional nova: a de captador de recursos. Isso é sinal de amadurecimento do Terceiro Setor no Brasil; notem como há cada vez mais novas profissões em torno da área social: captadores, avaliadores, gestores de projetos sociais... Essa profissionalização tem muitos elementos positivos, como os já citados aqui. Mas traz também alguns riscos, dos quais pretendo tratar em um próximo artigo. Até lá!
 
Fernando Nogueira: É professor na FGV-EAESP, onde se titulou como mestre e doutor em Administração Pública e Governo. É consultor em gestão de associações sem fins lucrativos, colaborador-voluntário da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) e presidente do Conselho do Instituto Doar. 


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