2 Pesquisas descobrem o doador que não se vê
05 de Dezembro de 2016 às 07:00
Já falei aqui sobre a Pesquisa Doação Brasil. Volto a ela e comento também sobre uma outra, que já vai para uma terceira edição e que reforça um doador que esteve sempre escondido. A segunda pesquisa se chama TIC Organizações Sem Fins Lucrativos. O foco é tecnologia nas ONGs mas que tem uma das perguntas bem específica, que trata sobre quem financia a organização. Já por duas edições se comprova que é o indivíduo o principal financiador.

Quero aqui falar um pouco mais sobre elas, mas antes, reconhecer um fato: O Brasil está começando a fazer pesquisas sobre o setor. Bravo! E melhor ainda, começam a haver séries históricas, o que permite que comparemos os resultados, os avanços ou retrocessos.

E antes de falar mais sobre elas e suas interações, adianto a conclusão: O doador é um ser escondido. Antes não o víamos porque não tínhamos dados sobre ele. E agora que sabemos que ele existe, temos que tirar o manto, (des)cobri-lo.

Comecemos pela pesquisa mais recente, solicitada pelo IDIS ao Instituto Gallup e co-financiada por várias organizações e pessoas. Entrevistou 2230 pessoas em todo país, com 18 anos ou mais, residentes em áreas urbanas e com renda familiar mensal a partir de um salário mínimo.

Segundo o estudo, em 2015, 77% dos brasileiros fizeram algum tipo de doação, sendo que 62% doaram bens, 52% doaram dinheiro e 34% doaram seu tempo para algum trabalho voluntário. Entre os que doaram apenas dinheiro para organizações sociais, são 46%. Assim, em 2015, as doações individuais dos brasileiros totalizaram R$ 13,7 bilhões, valor que corresponde a 0,23% do PIB do Brasil.

Percebe-se que as doações são recorrentes: mais de um terço dos doadores, 36%, fizeram uma doação por mês ao longo do ano passado. Essas doações ficam na faixa de R$20 a R$40 mensais, ou seja, de R$240 a R$480 por ano.

A Pesquisa Doação Brasil mostra não existir uma relação direta entre o tamanho da cidade e a prática de doação em dinheiro, ou seja, mesmo fora das grandes cidades, o brasileiro também doa.

O brasileiro doa!

Essa afirmação, surpreendente para muitos aqui, foi inicialmente comprovada na edição 2012, e agora confirmada na versão 2014, da pesquisa TIC Organizações Sem Fins Lucrativos.

A conclusão da pesquisa é de que 53% das organizações brasileiras recebem doação voluntária de pessoas físicas. O resultado é fundamentalmente positivo pois esse é o modelo no mundo, e agora o observamos também no Brasil.

Nos Estados Unidos, país em que talvez o Terceiro Setor seja o mais desenvolvido do mundo, os indivíduos respondem por 70% do financiamento das organizações, e na Inglaterra não fica muito longe disso, assim como em outros países.

Com a pesquisa TIC, finalmente temos fundamentos para concluir que o Brasil não está muito distante dos países desenvolvidos e democráticos, quando falamos em financiamento da sociedade civil, ainda que até hoje não tivéssemos instrumentos para comprovar isso. A pesquisa TIC muda esse cenário. A pesquisa do IDIS reforça.

É a sociedade civil que financia as suas próprias organizações.

Não havia pesquisas consolidadas sobre o quanto é doado no Brasil, e qual a origem das doações. Hoje sabemos.

Ambas pesquisas refletem finalmente o que os profissionais do campo da captação já intuíam: quem financia prioritariamente a massa das organizações brasileiras é o indivíduo. Nem de longe são as empresas (que estão em quinto lugar entre as fontes de recursos pesquisadas) nem o governo federal, que está em oitavo na lista, na pesquisa TIC.

Ainda sobre dados da TIC: O primeiro lugar nas origens de recursos está nas doações voluntárias de pessoas físicas. O que nos termos técnicos da captação de recursos denominamos de doações avulsas. Isso é aquele cidadão que foi chamado a doar pela primeira vez e algumas vezes acaba sendo a única vez, porque a própria organização não tem estrutura ou capacidade de fidelizá-lo com outras doações.

Em geral essas organizações são aquelas que trabalham solicitando como uma eterna primeira vez, mesmo quando, por vezes, o doador é o mesmo. Basta imaginar uma igreja que todo domingo pede para que circule a sacolinha. O doador que coloca ali suas moedas ou notas pode já ter colocado dinheiro na missa do domingo passado, mas para aquela congregação o entendimento é de que se trata de uma doação voluntária e portanto nova, a cada vez que o fiel contribui. Organizações mais preparadas tecnologicamente ou mesmo com uma certa gestão mais profissional percebem formas de fidelizar o doador.

Aí entra o segundo colocado na mesma pesquisa, as mensalidades e anuidades pagas. Também em uma faixa próxima a 50% dos entrevistados, esse mecanismo está presente nas organizações como uma opção que garante muito provavelmente o custeio das atividades cotidianas. São ONGs com uma característica associativista, baseada em recursos provenientes de defensores da causa, e algumas vezes até sócios mantenedores por interesses de pertencimento, como os Rotarys ou Lyons.

O que chamamos em captação de doações recorrentes é na verdade a forma mais profissionalizada de garantir a sobrevivência das organizações que defendem causas.

Um Brasil mais estruturado no seu terceiro setor teria esta origem (as doações recorrentes, ou como denominado na pesquisa, as mensalidades e anuidades) como a principal fonte de ingresso. Pois isso representa uma cidadania sendo exercida em sua plenitude: cidadãos que não só conhecem seus direitos e deveres como selecionam as causas que defendem, continuamente, de forma transparente e associativa.

A situação das organizações brasileiras está muito mais para um Greenpeace, que arrecada somente com indivíduos, do que alguma organização, que arrecada com empresas. Estamos muito mais próximos de um Médicos Sem Fronteiras (MSF), que tem mais de 170 mil doadores mensais, do que uma organização de saúde que necessita de recursos de governo. E falando em MSF, somos hoje muito mais um país exportador de doações (já que os recursos dos doadores dos Médicos sem Fronteiras vão atualmente para países na África) do que importadores de doações, como éramos faz 30 anos e a cooperação internacional nos via (e éramos) de terceiro mundo.

Além da continuidade de pesquisas como as que falamos hoje, há novas perguntas que eu gostaria de fazer: Como está o envolvimento dos doadores nas páginas eletrônicas de doação destas organizações? Como se ampliam as captações das entidades através de sua presença e pedidos nas redes sociais? Se hoje 1 a cada 4 organizações fazem pedidos de captação nas redes onde estão, quais esses resultados e como eles estão se comportando em comparação aos mecanismos tradicionais de doação?

Falta portanto que sigamos pesquisando as novas sacolinhas cada vez mais virtuais das organizações. Esse passar o chapéu que hoje se faz com gateways de pagamento. Caminhando a passos largos para os próximos 13 bilhões de reais anuais da força dos brasileiros comuns, doadores ocultos dentro e fora da web.

* Este artigo foi retrabalhado a partir de um artigo anterior escrito para a pesquisa CETIC. O que fiz agora foi adicionar dados da mais recente pesquisa do IDIS.
Link para as pesquisas:

# TIC Organizações sem Fins Lucrativos – 2014

Link para o dado específico, estudado neste artigo: D6 – PROPORÇÃO DE ORGANIZAÇÕES POR FONTE DE RECURSOS

# Pesquisa Doador Brasil


Marcelo Estraviz, escritor, empreendedor, palestrante, ativista. Fundador e ex-presidente da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) e da associação de ex-alunos do Colégio Miguel de Cervantes; conselheiro do Greenpeace, do Instituto Filantropia, do Cidade Democrática e do Engajamundo. Autor dos livros “Captação de diferentes recursos para organizações da sociedade civil” e “Um dia de captador“. Acaba de lançar o livro “Pause“, sobre suas experiências com períodos sabáticos. É Empreendedor Cívico da RAPS, Rede de Ação Política pela Sustentabilidade e Presidente do Instituto Doar
 


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