Comunicação: as ONGs estão errando a estratégia?
04 de Outubro de 2016 às 08:00
A maior parte dos brasileiros acha que somos importantes para a resolução dos problemas sociais e ambientais do país. Mas nos vê com desconfiança e se queixa de que não deixamos claro o que fazemos com o dinheiro recebido. O descompasso, revelado pela Pesquisa Doação Brasil, pode indicar que estamos errando a mão na comunicação.

O levantamento, o maior sobre o tema no Brasil, foi feito pelo Gallup e coordenada pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis). Ouviu 2.230 entrevistados, numa amostra representativa da população brasileira. Do estudo podem-se colher opiniões sobre as ONGs que atuam no país. Exemplos:
 
AFIRMAÇÃO CONCORDAM DISCORDAM NEUTROS 
ONGs são necessárias para resolver problemas sociais e ambientais 57% 19% 24%
Não confia no que as ONGs fazem com o dinheiro recebido 44% 33% 27%
Deixam claro o que fazem com o recurso que aplicam 28% 44% 28%
A maior parte das ONGs é confiável 26% 37% 37%


“As ONGs podem estar se comunicando de uma maneira que as pessoas não entendem, apesar de elas terem vontade de conhecer mais do trabalho social", diz a diretora de comunicação e de relações institucionais do Idis, Andréa Wolffenbüttel. “Será que o doador entende um balanço anual publicado por uma organização?”, exemplifica.

Diretora da Acorde, organização que lida com crianças e adolescentes, Joana Mortari tem avaliação semelhante. "Relatórios são mais para doadores institucionais. Quando publicamos, quem lê geralmente são aquelas pessoas que trabalham no setor social".

Outro sinal de que nossa ação pode estar fora de foco veio diretamente da pesquisa. Quando os entrevistados foram perguntados sobre os meios mais convenientes de comunicação, a televisão ficou em primeiro lugar (54%), seguida do rádio (52%). Nas duas últimas posições ficaram a abordagem pessoal em domicílio (27%) e em local público (20%).

"As pessoas preferem abordagens feitas de maneiras mais distantes, mas estas são menos efetivas. Talvez as organizações tenham de adotar maneiras mais criativas ou divertidas de fazer abordagens pessoais”, comenta Andréa. “Precisam tangibilizar os resultados para os doadores, dizer o que sua doação ajudou a fazer."

A Acorde, por exemplo, ao trabalhar o relacionamento com sua base, enfatiza os casos dos beneficiários. "Quando mandamos um boleto para um doador, nós sempre colocamos junto uma história de alguém que atendemos, sem ficar citando resultado. Não dizemos que a pessoas ficou autônoma por causa de nosso trabalho, mas sim que é uma história de autonomia", conta Joana.

O objetivo final tem de ser tornar "o doador menos reticente, fazê-lo mais satisfeito e seguro sobre o que quer fazer", segundo Andréa. O apoiador, sobretudo pessoa física, “deve se sentir parte do projeto, não alguém distante que apenas coloca dinheiro", diz Joana.


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