Planejar em tempos de crise
22 de Agosto de 2016 às 10:00
Tenho ouvido por aí que muitas organizações da sociedade civil tradicionais estão passando por sérios momentos de crise. Falta de recursos, equipes sendo demitidas, vazio de projetos. Um momento muito delicado que pede de nós, que atuamos em OSCs, muita reflexão.
 
Algumas dessas organizações tinham grande parte de seus recursos advindos de parcerias/convênios com o poder público e, com a crise que assola os orçamentos das diversas instâncias governamentais, sofreram cortes extremos em seus projetos. Outras, tinham grande dependência de fontes internacionais, que sinalizam diminuição de financiamento de projetos há bastante tempo, mas somente a partir da crise financeira de 2008 vêm colocando em prática esses cortes.
 
Algumas dessas organizações têm sido provocadas a buscar recursos com a sociedade civil (especialmente de indivíduos). No entanto, ao fazer esse exercício percebem que não sabem o que dizer nem como abordar essa “tal de sociedade civil” que pretensamente elas deveriam representar. É como se você, depois de anos sem falar com seus parentes, precisa deles para resolver um problema e descobre que não sabe como resgatar essa relação.
 
Organizações da Sociedade Civil têm esse nome justamente porque são as organizações que buscam representar a sociedade e fazer avançar certas causas, papel que nem empresas nem o governo podem cumprir. O espaço da sociedade civil organizada é o espaço da criatividade, da liberdade, da autonomia e da inovação na busca pelo bem comum. A forma como uma organização se financia é determinante para garantir que tudo isso seja conquistado.
 
Parece um chavão, mas não custa relembrar: momentos de crise são também momentos de oportunidades. Alguns podem achar que, em momentos de crise, não adianta planejar nada, já que não sabemos o que virá pela frente. Outros planejam de maneira incremental, e percebem que os planos não adiantam nada, uma vez que planos incrementais podem nos levar de volta para o centro da crise.
 
Um possível caminho para organizações em crise pode ser aproveitar esse momento para se rever profundamente e, antes de tudo, compreender verdadeiramente as raízes da crise. Entender a raiz de uma crise não é “jogo para amadores”. Requer muita coragem e um ambiente de confiança. Sem querer esgotar o assunto, arrisco uma lista de perguntas que um plano em tempos de crise deveria responder:
 
  • Por que, afinal, estamos em crise?
  • O que pode ter nos levado a essa situação?
  • O problema/causa onde atuamos está mudando? Como?
  • Nossa organização tem acompanhado a evolução de nossa causa? Estamos abertos para mudar nossa forma de atuar, se necessário?
  • Como nossa equipe tem se atualizado?
  • Temos mantido um diálogo e abertura com os públicos em torno de nós e da nossa causa?
 
A falta de recursos pode nos fazer acreditar que o que precisamos é de um bom plano de captação de recursos. Pode ser. Mas pode também ser que tenhamos que ir mais fundo. Um plano de captação de recursos só gera resultados consistentes se estiver lastreado por bons planos organizacionais e uma relação sólida com seus grupos de interesse, entre outras coisas. Portanto, não se engane: quando a crise bater na sua porta, agradeça. Pode ser uma grande oportunidade para sua organização rever radicalmente o que está fazendo e passar a fazer algo extraordinário. Coragem.


Rodrigo Alvarez: Formado em Administração de Empresas pela EAESP – Fundação Getúlio Vargas, com pós-graduação em Fundraising pela Indiana Fundraising School, atua no setor sem fins lucrativos há 20 anos, como captador de recursos e gestor de renomadas organizações sem fins lucrativos (Doutores da Alegria e CDI) e como consultor de organizações brasileiras e internacionais (IDIS e The Resource Alliance).
Larga experiência na estruturação e implantação de processos de planejamento estratégico e planos de captação de recursos. É Membro do Conselho da AIESEC e foi um dos fundadores da ABCR (Associação Brasileira de Captadores de Recursos), organização que ocupa atualmente a Diretoria de Relações Internacionais. Coautor do livro “Fundos Patrimoniais – criação e gestão no Brasil”, publicado em 2011.

 


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