I love charity
16 de Dezembro de 2015 às 10:49
Você conhece alguem que doou pro Criança Esperança?
 
Quantas coisas repetimos porque nos são ditas por pessoas que confiamos? O assunto doações é cheio de lendas. Escutamos diariamente mentiras, gerando desconfiança. Eu conheço muitas pessoas que doam pro Criança Esperança, Teleton, Greenpeace, Graac, Médicos sem Fronteiras… Aliás, essas pessoas são bem especiais. Já as que não doam tem uma tendência forte a acreditar em teorias conspiratórias. Você achou que eu iria falar sobre uma dessas teorias? Errou de artigo. Está interessado em entender como funciona a cabeça de quem doa? Siga em frente.
 
O objetivo deste artigo é espancar essas informações distorcidas até que estas se adequem à realidade. Que os mitos sejam destruídos um a um, como os doze trabalhos de Hércules. Uma aventura épica em algumas linhas. Mas que sabemos que não interferirá nada ou quase nada no cotidiano da população. Na prática os que doam continuarão doando, e os que não doam continuarão não doando. Humildemente, fiquemos com a esperança que em uma provável pesquisa do google, este singelo artigo apareça na primeira página um dia, e que ao linkarem nele, o curioso leia isto aqui, explicando convincentemente o que segue. São 6 as máximas que vale a pena compreender:
 
Quem mais doa é o pobre. E isso não é só aqui. É em todo o mundo. A somatória das doações dos pobres e da classe média em qualquer país pesquisado é várias vezes superior à soma das classes A e B. Os ricos doam mais dinheiro, mas são em muito menor quantidade, poucos entre eles doam, e sem nenhuma regularidade. Já os pobres doam pequenas quantidades, mas constantemente. O motivo de porque os pobres doam mais? Eles são solidários com a realidade ao seu redor. Muitos são ex-necessitados, ou tem ainda necessitados em suas famílias ou vizinhança. Sabem que suas contribuições podem sim ajudar alguém a sair do poço. Não é vergonhoso saber que gente que tem menos grana do que você doa dinheiro para os ainda mais necessitados? E o mais interessante ainda: todo doador tem uma felicidade só dele. Quer experimentá-la?
 
Doar não tem nada a ver com incentivo fiscal. Quem acha que as pessoas não doam em função da falta de incentivos fiscais é porque não leu a verdade acima. Incentivos são bons? Claro que sim. Ajudam na decisão final? Sim, ajudam. Inviabilizam uma doação que seria feita? Não. As experiências no Brasil mostram que não chegam a 40 mil os doadores pessoa física que usam incentivos fiscais, sendo que somos 35 milhões de doadores sem nenhum incentivo. Outros alegam que os americanos doam porque há incentivos. O dado objetivo: os americanos doam 300 bilhões de dólares. O recurso que se incentiva não chega a um décimo disso. Então deixemos de reforçar a mentira de que não se doa porque faltam incentivos. Não se doa porque… leia o próximo item.
 
Não se doa porque não nos pedem. Acredita? Não é incrível? Esses 35 milhões de brasileiros doam principalmente para igrejas e pedintes e não para ONGs. Algum desavisado pode dizer que o brasileiro prefere doar para igrejas e pedintes, quando na verdade o que ocorre é que são as igrejas e pedintes que pedem. Simples não? Não temos números aproximados de quanto as pessoas doam. Acredita-se que seja algo em torno a 5 bilhões de reais por ano. Se as organizações existentes passassem a solicitar mais recursos de indivíduos, poderiamos tranquilamente dobrar esses bilhões de doações em 5 anos. Aliás, é o que estamos propondo, em fóruns específicos de ONGs. Dobrar o número de doações e de doadores em 5 anos. Nada muito complicado. Muito mais difícil é tentar dobrar os 2,5 bilhões feitos por Institutos Empresariais. Não há muito mais para crescer nas verbas de patrocínios e doações das empresas e suas fundações. Já em relação aos indivíduos, somos quase 200 milhões de brasileiros. Imagine que em 5 anos podemos ser 70 milhões de doadores. É só dobrar a aposta. Quem doa 10 reais, passar a doar 20. Quem tem um doador em casa, convencer mais outro. E assim se chegará facilmente a 10 bilhões de reais em doações de indivíduos por ano. 4 vezes mais do que o empresariado investe. Interessante.
 
Quem não doa desconfia . Quem doa confia. Muitos alegam que não doam porque as ONGs não são confiáveis. Quem diz isso na verdade não pretendia doar mesmo. Encontrou uma boa desculpa para não doar. Existem mil desculpas para a pessoa não doar. Essa é uma delas. Há ONGs picaretas? Sim, várias. Mas há um número muito maior de ONGs sérias. E principalmente há ONGs muito próximas de você, pra você ir a pé, conhecer, olho no olho, apoiar um pouquinho, criar relação. Esses que gritam aos 4 ventos que as ONGs não são confiáveis estão fazendo um enorme desserviço. São do tipo quanto pior melhor. Colocam no mesmo balaio a ONG corrupta que recebe dinheiro do governo com aquela creche do bairro que faz rifa pra fechar as contas. Há mecanismos para aos poucos irmos separando o joio do trigo. Certificados, prêmios e reconhecimentos. Mas nada é melhor do que achar a ONG que é a sua cara, a causa que te faz ir lá visitar a sede. Conheça, confie e doe.
 
Doar fortalece a democracia e a diversidade. Doar é uma atividade que nos fortalece como cidadãos. Não se trata de esmola, nem de substituir o estado ou o mercado. Não se doa porque há benefícios em troca. A gente doa nosso dinheiro, nosso tempo voluntário, nosso coração e nossa mente porque esta é a forma de contribuir por algo que a gente acredita. Doar não tem nada de nobre, nem deve ser. As pessoas doam porque acreditam que aquela causa precisa de apoio e legitimação. Doar deve se transformar num hábito comum, corriqueiro, parte do nosso cotidiano como cidadão. Doar é cidadania ativada. Eu sei meus direitos e deveres e além disso explico pro mundo quais são as causas que eu acredito, defendo e apoio. E doar não envolve a briga do que é melhor. Eu doo para uma ONG que defende o mico leão e você doa para entidades que cuidam de crianças com câncer. E somos amigos. Não é fla-flu. Não competimos.
 
Doar é cool. Dizer na faculdade que você foi doar sangue de manhã vai fazer umas meninas olharem pra você com outros olhos. Ou você, que comenta com os colegas de trabalho, como quem não quer nada, que no sábado passado participou de um mutirão pra pintar os muros da praça. As pessoas de olham com outros olhos quando você comenta essas coisas, quando aparecem fotos suas no facebook distribuindo roupas. Isso define o que é que estamos mesmo fazendo neste mundo. Você que lê este artigo, assim que doar 20 reais por uma plataforma online, compartilhe no facebook para seus amigos. Doar é pra ser dito, não pra que nos achemos superiores ou nobres, mas pra que isso gere uma onda. Estamos marola, seremos tsunami.
 
E então? Conhece alguem que doou pro Criança Esperança? Ou pro Teleton? Ou pro Greenpeace? Pergunta pra essa pessoa porque ele fez isso. Você vai se surpreender com a resposta.

Marcelo Estraviz, escritor, empreendedor, palestrante, ativista. Fundador e ex-presidente da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) e da associação de ex-alunos do Colégio Miguel de Cervantes; conselheiro do Greenpeace, do Instituto Filantropia, do Cidade Democrática e do Engajamundo. Autor dos livros “Captação de diferentes recursos para organizações da sociedade civil” e “Um dia de captador“. Acaba de lançar o livro “Pause“, sobre suas experiências com períodos sabáticos. É Empreendedor Cívico da RAPS, Rede de Ação Política pela Sustentabilidade e Presidente do Instituto Doar


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