A boa gestão das Melhores ONGs brasileiras
07 de Maio de 2018 às 06:00
Criado em 2017 pelo Instituto Doar, o Prêmio Melhores ONGs se propõe a reconhecer as organizações da sociedade civil com boa gestão e que merecem o apoio da população brasileira. A ideia é identificar anualmente 100 ONGs de diversas causas de todas as regiões do país. Mas como sabemos quais são, de fato, as melhores?

Não é um desafio fácil. Os critérios têm de dar conta das mais diversas variações – comparar ONGs pequenas, basicamente voluntárias, com organizações de orçamentos com muitas dezenas de milhões de reais; causas as mais diferentes e específicas possíveis, de meio ambiente a direitos humanos ou assistência social; estratégias e propósitos distintos – da ONG de prestação de serviço direto à organização de advocacy e defesa de direitos difusos...

Para viabilizar um julgamento que dê conta dessa diversidade e seja o mais justo possível, são usados cinco critérios de seleção:

1. Causa e Estratégia de Atuação
A organização é clara ao definir seu propósito (e a estrutura / estratégia necessários para atingí-lo)?

2. Representação e Responsabilidade
Há um sistema sólido e transparente de governança para a tomada de decisões fundamentais?

3. Gestão e Planejamento
A ONG sistematiza suas práticas de gestão em planos e sistemas que dão conta de aspectos estratégicos, operacionais, financeiros e de sustentabilidade institucional?

4. Estratégia de Financiamento
A organização dedica esforços consistentes para captar recursos de forma regular e recorrente com uma ampla base de diferentes fontes de recursos?

5. Comunicação e Prestação de contas
A ONG é transparente com seu diferentes públicos, comunicando-se de forma regular e disponibilizando documentos relevantes em seu site e outros meios e mídias?

Em síntese, o Prêmio busca reconhecer uma organização com missão, causa e estratégia claras, apoiada por uma ampla gama de pessoas, comunidades e organizações, com práticas de gestão sistematizadas e transparentes, tendo múltiplas fontes de sustentabilidade e legitimidade organizacional.

Neste momento, estamos na segunda fase de julgamento do Melhores ONGs – edição 2018. Das cerca de 800 organizações que se inscreveram, 306 foram selecionadas para esta etapa. E o que fez a diferença entre passar ou não de fase? Dois pontos se destacam. (1) As ONGs selecionadas têm processos de gestão, captação de recursos e comunicação mais sistematizados. (2) Além disso, dão mais ênfase a ampla base de apoio na sociedade, com mais voluntários e captação com pessoas físicas.

E o que fica de aprendizado para as organizações que buscam um caminho de melhoria organizacional?

Comunicar mais e investir em transparência
Muitas organizações que se inscreveram não atendem a critérios básicos de transparência, como divulgar a composição de seu conselho, relatórios de atividades e demonstrativos financeiros em seu site e/ou mídias sociais. Comunicar de forma transparente é fundamental para gerar mais confiança a potenciais doadores.

Sistematizar práticas e planos de gestão
Na correria do dia a dia, sabemos o quanto é difícil parar para planejar e por no papel objetivos, planos, processos e metas. Mas o risco é cair em um círculo vicioso – a correria não nos deixa planejar, e a falta de planos e reflexão não deixa a gente sair da correria e do modo de apagar constantes incêndios. Comece pelo o que é mais fácil, comece pequeno, mas comece e vá melhorando seus planos aos poucos e constantemente.

Investir em captação
Dedicar mais recursos financeiros e humanos à mobilização de recursos se traduz em traçar planos, ter metas claras de captação para diferentes fontes, diversificar essas fontes. Muitas ONGs que não passaram de fase ainda demonstram grande dependência de uma única fonte – 80 ou 90% de seus recursos vêm de governo ou de grandes empresas. Mudar essa situação no curto prazo não é fácil, mas é essencial para evitar o risco de ver sua principal fonte de apoio repentinamente desaparecer por completo.

Buscar base de apoio e legitimidade mais ampla
Finalmente, organizações com boa gestão são aquelas com uma base de apoio a mais ampla possível, resultando em mais legitimidade para sua atuação. Como ampliar a base de apoio? Envolvendo, de forma significativa, diferentes públicos relevantes para a ONG – funcionários, voluntários, conselheiros, muitos pequenos doadores, a própria comunidade / público alvo...

Sabemos que, mesmo nas organizações reconhecidas no Prêmio Melhores ONGs, sempre há o que melhorar e se desenvolver. Mas ter esse momento de reconhecimento público e de celebração das boas organizações do setor ajuda a parar um pouco, respirar, ver o muito que avançamos, se inspirar nos exemplos dos outros e renovar nossas energias para o que vem pela frente.


Fernando Nogueira é professor na FGV-EAESP, onde se titulou como mestre e doutor em Administração Pública e Governo. É consultor em gestão de associações sem fins lucrativos, colaborador-voluntário da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) e presidente do Conselho do Instituto Doar. 


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