Capital para inovação social e fortalecimento institucional
02 de Abril de 2018 às 07:00
Se você tivesse recursos limitados para investir numa ONG, você gostaria que o seu dinheiro fosse aplicado o máximo possível “na ponta”, com despesas de programas, ou autorizaria que parte dos recursos pudessem também ser gastos no desenvolvimento institucional? Provavelmente, como doador, você sempre será favorável a investir o mínimo possível numa “estrutura meio” para garantir o máximo do retorno social para seu investimento, certo?

Porém, para quem trabalha numa organização da sociedade civil, fica claro a necessidade de se investir no fortalecimento institucional. Investimentos para desenvolver um plano competitivo de cargos e salários, contratação de consultorias, treinamento para equipe, inovação social e, finalmente, a criação de uma estrutura interna de captação de recursos, são investimentos difíceis de serem defendidos perante um doador/parceiro, mas fundamentais se quisermos, de fato, apostar no fortalecimento das organizações da sociedade civil.

Os efeitos da falta desse capital de longo prazo podem ser sentidos de diversas maneiras – falta de investimentos em treinamento da equipe, salários baixos, precarização das contratações, desmotivação da equipe e, no limite, baixa capacidade de fazer transformações sociais relevantes. Vive-se, dentro das ONGs, um ciclo de escassez crônica, onde a falta de investimentos desta natureza gera uma baixa atratividade de bons talentos e esgotamento físico e psicológico dos profissionais que atuam no setor.

Quando falamos em captação de recursos, grande parte das organizações se vêem hoje “prisioneiras” de modelos de financiamento que não preveem investimentos de longo prazo. Entidades de assistência social, por exemplo, recebem grande parte de seus recursos de convênios governamentais. Organizações de defesa de direitos, em geral, possuem modelos definanciamento baseados em recursos de financiadores internacionais. O desafio de criar novos modelos de financiamento requer conhecimento, equipe, tecnologia e recursos para ações de comunicação e marketing. Porém, os recursos previstos em convênios governamentais ou Grants de Fundações Internacionais dificilmente preveem despesas como essas.

De acordo com o Charity Navigator, plataforma americana que avalia a performance de mais de 9 mil organizações sociais, o investimento médio em captação de recursos, nas 10 organizações melhor posicionadas, é de 5,25% do orçamento anual. Este percentual pode variar para cada organização, mas há um certo consenso internacional de deve se manter entre 5 e 10%. Em caso de organizações em processos de crescimento e que captam recursos eminentemente com indivíduos, pode chegar a 15-20%.

A distinção entre os conceitos de despesas e investimento, tão claros e utilizados no campo empresarial, precisa ser incorporado como parte da reflexão estratégica de todas as organizações sociais, de pequenas a grandes. Compreender e elaborar orçamentos e negociar parcelas de projetos para o desenvolvimento institucional é uma ação política. Aprender a falar de dinheiro e lidar com o dinheiro de forma inteligente é, em minha opinião, parte muito relevante do papel dos líderes das organizações de impacto social.

 
Rodrigo Alvarez é Sócio Proprietário da Mobiliza. Administrador de Empresas, com Especialização em Fundraising pela Indiana Fundraising School, formação em Processos de Desenvolvimento pelo PROFIDES/Instituto Fonte e em Pedagogia Social pela Associação Brasileira de Pedagogia Social de Base Antroposófica. Atua há 20 anos com gestão e captação de recursos. Foi um dos fundadores da ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos e é membro do Conselho Consultivo do Rogare – Centro de estudos internacional que pesquisa, entre outras coisas, sobre o futuro da captação de recursos no mundo. 


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