Não é vergonha depender de doação
26 de Março de 2018 às 06:00
Quando se fala de combater preconceitos, é muito comum ouvirmos que é importante começar combatendo-os dentro de nós, tentar mudar quem somos para poder agir melhor para com todos.

Essa é uma máxima que é perfeitamente válida no terceiro setor: para poder estimular que as pessoas doem cada vez mais para as organizações da sociedade civil, é fundamental que as próprias instituições superem a vergonha que têm de pedir a doação.

Por isso, para contribuir a superar isso, vou repetir aqui o título deste artigo: não é vergonha depender de doação. Pelo contrário, ser dependente delas é que é certo. A doação é o recurso que, por excelência, financia as organizações. No Brasil e no mundo (nos Estados Unidos, por exemplo, as organizações recebem mais de 1 trilhão de reais todos os anos, de doação dos americanos; no Brasil, pelo menos 14 bilhões de reais).

Aliás, a doação é o melhor dos recursos que poderia nos financiar. Não somos agentes públicos, para dependermos de impostos para realizar nossas atividades; e não somos empresas, que tem na venda de produtos ou na prestação de serviços a sua fonte de receita principal. Também não somos, e nem vamos nos tornar, negócios de impacto social, uma alternativa muito interessante para muitas pessoas que estão engajadas na transformação social verdadeira, mas que nunca será ampla o suficiente para abranger todas as causas da sociedade.

Nós, e o próprio nome diz isso, somos organizações da sociedade civil (ok, alguns chamam de ONGs, ou de entidades, tudo bem). E se somos da sociedade civil, é mais do que natural que seja a própria sociedade a nossa maior financiadora. Que legitimidade tem uma organização que não tem o apoio da comunidade? Que a comunidade não a reconhece como relevante e não ajuda no seu financiamento, compartilhando da sua causa?

Acontece que no Brasil, o preconceito contra a doação existe, e muitas vezes parte de dentro da própria organização. Elas – e não são poucas que as pensam assim – têm vergonha de pedir doação, têm medo, acham errado. Muitos dos seus fundadores, gestores, ou diretores, acham pedir doação é rebaixar-se, é buscar esmolas, ou mesmo se vender. E falam isso abertamente. A doação para organizações não é esmola, pelo contrário: é o que vai garantir a sustentabilidade financeira e a independência de gestão delas. Não podemos depender exclusivamente da transferência de recursos públicos, ou do patrocínio de poucas empresas. Temos que “depender” de quem acredita na nossa causa e gosta tanto do nosso trabalho que doa para nós.

Já presenciei eventos maravilhosos, produzidos para a elite, em que as lideranças passaram a noite toda sem fazer um único pedido de doação. Já vi organizações com cartazes no metrô de São Paulo que alcançavam milhões de pessoas, mas tinham a palavra “doe” escondidinha no canto. E outras em que a ela nem sequer aparecia. Então como esperar que as pessoas realmente nos financiem? Não pode ser assim.

É preciso superar a ideia de que pedir doação para uma organização é errado, é feio. É preciso evoluir da concepção que podemos aceitar todo o tipo de doação, menos dinheiro (outro pensamento muito comum), e inverter a lógica, explicando para as pessoas que, sem dinheiro, as organizações não têm como financiar sua gestão, e proporcionar mais impacto na sociedade.

E a palavra que complementa a doação é causa. Todo mundo tem uma, duas, às vezes várias causas, que são aqueles assuntos que fazem com que as pessoas se mobilizem e se revoltem, escrevam “textões” na internet, postem imagens no Instagram. Essa energia está lá fora, e precisamos convertê-la em doação. Precisamos levar às pessoas a ideia de que elas podem fazer muito pela causa que já defendem, doando para as organizações que as representam.

É a doação delas que vai garantir nossa independência e sustentabilidade. A causa nós já temos, vamos agora atrás das doações. E certa está a organização que pede doações sempre, e que se financia plenamente com elas.




João Paulo Vergueiro, administrador, Diretor Executivo da ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos, e professor de responsabilidade social corporativa na FECAP.


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